segunda-feira, 13 de junho de 2011

O único meio de vencer a opressão

por
João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Professor universitário12 Junho 2006
 
No princípio era a opressão. Falam do tempo antes da opressão, mas ninguém se lembra dele. Na vida antiga dominava a injustiça, abusos, sofrimento, angústia. Olhando para trás não vemos senão isso. Depois aconteceu o progresso, democracia, segurança social, direitos, liberdades. Mas não eliminaram a opressão. Olhando à volta também só a vemos a ela.
Toda a gente se queixa. Os pobres sofrem a pobreza e sentem-se roubados, os ricos temem a pobreza e também se sentem roubados. As mulheres são discriminadas por serem mulheres, os consumidores ao comprarem, os trabalhadores quando trabalham e as empresas sempre. Os que vivem na ditadura choram, os que vivem em democracia gritam, e todos se sentem oprimidos. Os doentes gemem e os saudáveis criticam o sistema de saúde. Os de-sempregados afligem-se e os empregados também. Graças ao progresso conseguimos demonstrar que os nossos avós estavam errados. Eles sonhavam com um tempo sem fome, pobreza, abandono, infelicidade. Nós vivemos uma época ainda melhor que o seu sonho, com meios mais que suficientes para resolver todos os dramas. Mas continuamos a ter pobreza e fome e aumentámos o abandono e infelicidade, o crime e o suicídio. Hoje ainda é a opressão. Isso não quer dizer que o progresso e a liberdade não tenham sido excelentes. Ninguém nega as melhorias e quem quer voltar atrás ignora a terrível miséria antiga. O bem--estar é uma realidade, mas o desenvolvimento e a democracia estão longe de solucionar a opressão.
Primeiro, porque a abundância aumentou a desigualdade. Alguns vivem na opulência como sempre, e a esmagadora maioria vive no conforto como nunca. Mas, apesar da democracia e segurança social, para lá dos direitos e liberdades, permanecem as margens da sociedade, vergonhosamente privadas do essencial. Afinal leis, partidos, sindicatos e despesas públicas não chegam para acabar com a opressão. Reduzem-na, mas não a eliminam.
Depois, a prosperidade e a liberdade aumentaram a ambição. Hoje é opressão não ver a telenovela ou perder o subsídio. Agora considera-se pobreza estar privado da Internet ou do rastreio de doenças profissionais. Assim, vivendo melhor do que podiam imaginar os antigos, sentimo-nos mais triste que eles. Descobriu-se que a opressão é relativa: ter menos que os próximos, mesmo na abundância, é indigência.
Finalmente, aumentou o risco. Quem anseia pela convergência económica ou por uma vida realizadora, assusta-se quando o crescimento abranda.

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